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O manequim gay

A estória que se segue se passa em um mundo paralelo, em um tempo indefinido, composta de personagens e ações sutilmente distintas daquelas que você, leitor, está acostumado a presenciar em seu cotidiano preto-e-branco.

Pedro, todos os dias, pontualmente, acorda às 06h30 da manhã. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Levanta-se, olha-se no espelho, desenha em sua cabeça pensamentos depreciativos sobre sua aparência física, toma um banho, veste-se, prepara um café da manhã leve e sai para uma corrida. Põe seus fones e ouve músicas no modo aleatório: não importa o timbre do cantor ou a harmonia da composição, apenas o barulho que invade e preenche seus ouvidos.

Como ser um bom escritor



Certa vez, em um passado nem tão longínquo, um amigo me abordou e questionou: como está o Blog, Elvis? Esbocei a mesma reação, que esboço a todos, um franzir de cenho, acompanhado de um enruguecer de lábios: rapaz, está parado. Logo acompanhado da desculpa de compreensão universal: não tenho tido tempo. Ok.
Em passado mais recente, outro amigo dispersou a seguinte informação: o Elvis escrevia um Blog (isso mesmo, no pretérito, indicando uma ação perfeitamente acabada e concluída). Estranhei porque, até então, jamais ouvira tamanha audácia: nunca parei de escrever. Logo, ele disparou uma resposta muito perspicaz – a mesma que me levou a escrever o presente texto: é, mas você sequer atualiza mais. Mantive-me inerte diante daquela afirmação, refletindo, cabisbaixo, a respeito de sua veracidade. Hoje, neste domingo de ócio produtivo, venho, por meio deste instrumento, oferecer minha réplica, que outrora se mantivera calada:

Dicas de como ser um bom adúltero

NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS POR CONTER PALAVREADO DE BAIXO CALÃO.

- Quando você voltará, querido? – Vânia contorcia-se dengosamente por entre os lençóis de algodão do motel.
- Não sei, já disse! – enfatizei rispidamente. – E, mais uma coisa, - acrescentei – não me ligue mais! Da última vez, tive de fazer uma encenação digna de Oscar para convencer Helena – revirei os olhos. Sabe como ela é ciumenta, e que já vem desconfiando de um novo relacionamento paralelo.
- HAHAHA! – riu-se por inteira, com ênfase no tom de deboche. Até quando aquela corna vai aceitar suas traições, hein?
De sobressalto, saltei sobre Vânia e, quando dei por mim, minhas mãos já estavam envoltas em seu pescoço, enquanto paralisava suas pernas, que pendiam inúteis entre as minhas.
- N-U-N-C-A mais repita isso! – a fúria ardia em meus olhos. – Ouviu, sua rapariga? – vi a cor esvaindo de seu rosto, enquanto se debatia inerte, tal qual uma presa nas garras do predador. – Você sequer é digna de pronunciar o nome de Helena, entendeu?!

Padrasto versus enteado

Pedro sabia que Félix não é nem nunca seria seu pai. Nem ambos tinham a intenção de sê-lo.  Apenas suportavam a relação não amistosa em respeito ao pupilo em comum: Gal. O carisma contagiante e o sorriso fácil desta sucumbiam qualquer ímpeto animalesco. Os machos sabiam que a luta por aquisição do território seria inoficiosa. Restava, pois, o conter de ânimos.

Félix sequer se esforçava para conquistar a amizade dos filhos. Pedro, por sua vez, não estava disposto a ser domado. Ricardo assistia inerte às lutas romanas entre ambos. Gal agia como juíza conciliadora, ora em diplomacia, ora em liderança. Nem é preciso se utilizar tanto de argumentos quando se tem poder de sedução sobre o sexo oposto.

Os Sem-Natal



O abandono de crianças e idosos em asilos


Olhava fixamente aquele retrato amarelado e desgastado pelas intempéries do tempo. Tentava imaginar como seria o rosto dele, após tantos anos. Será se ele tem o garbo do pai? Será se ele tem os olhos da avó? Não sei, nem nunca saberei. Absorta em meus pensamentos, encarava o nada, e ali me mantive em lágrimas e esperanças perdidas.

Descobri, há vinte anos, que era portadora de esclerose múltipla. As palavras soavam inaudíveis de meus lábios, tentando, em vão, expressar o impacto daquela notícia. Como a natureza poderia ser tão cruel? Por que eu? Será se não mereço ter uma vida plena, nem que seja um pouco mais? Padeci diante das lembranças de todo o tempo perdido e das chances abandonadas, ou pelo simples medo de errar ou pelo cômodo da imparcialidade diante das escolhas.

Agora, aqui estou. Sentada nesta cadeira de rodas, dependendo de tudo e de todos para as mais elementares atividades cotidianas. O galope de minha doença transparece no crescente peso que despenca sobre meus músculos. Por que eles não respondem aos comandos do seu mestre? Apenas sorriem diante do fracasso de minhas tentativas.

Pai, me compra um amigo?


AOS PRANTOS, meu filho veio em minha direção, atropelando-se entre soluços e obstáculos:
 - Que foi, pequenino? – envolvi-o em meus abraços, afagando-lhe a dor.
 - P-p-pai, me compra um amigo? – disse, enxugando as lágrimas e com brilho nos olhos daqueles que possuem plena convicção do que dizem.
- Comprar um amigo? – estranhei o pedido, ofertando-lhe a impossibilidade empírica do fato por meio de um franzir de cenho.
Explicou-me toda a história, entre malabarismos e contorcionismos corporais, queixando-se de suas falsas amizades.
 - Meu querido – adociquei a voz -, aprenda, desde já, que o ser humano é o bicho mais difícil de se lidar. – retirei o cabelo que caía em sua testa e aproximei-me de seu rosto. – Aprenda, também, antes de tudo, a perdoar as pessoas.

Teresina, Cidade Verde?

TERESINA, capital do Estado do Piauí, hoje, 16 de agosto, comemora seus joviais 160 anos. Uma cidade que, apesar de nova, já enfrenta problemas de grandes metrópoles. Mazelas sociais que perpassam as desigualdades sociais, a falta de infraestrutura das polícias judiciárias, o déficit do ensino educacional, o descaso com a saúde pública e o total desinteresse na conservação das riquezas naturais. Abordaremos, neste texto, este último tópico, expondo, ao final, soluções plausíveis para desenlace deste impasse.

Você quer ser meu pai?


Abandono de crianças em orfanatos no Brasil


HELENA fincava fortemente as unhas em minhas costas. Suas lágrimas inundavam meu paletó. Reunia, em minhas vísceras, o impossível, para não sucumbir àquele momento. Era o terceiro filho que perdíamos, somente naquele ano.

 - Eu sou uma oca, Vinícius! Completamente vazia por dentro! – agitava a cabeça, desordenadamente, atrapalhando-se entre lágrimas e palavras.

 - Amor... – suspirei fundo. – Acalme-se. A culpa não é sua. – pus meu indicador em seu queixo e, erguendo seus olhos, enxuguei-lhe as lágrimas e beijei-lhe a testa. – O aborto espontâneo, como a própria nomenclatura sugere, independe completamente de sua vontade. – entoava minha voz, de modo a soar a mais acolhedora possível. – Simplesmente acontece. – conclui, abraçando-a com maior afinco. Olhei para o nada, por sobre seu ombro, e perdi-me em pensamentos, perguntando-me até que ponto suportaria aquilo tudo.

Histórias Cruzadas

 A discriminação racial no Brasil


Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...). (CF/88)

A PAR da garantia insculpida na Carta Magna, será se a igualdade lato sensu, princípio basilar da República Federativa do Brasil, ultrapassa os limiares estabelecidos pela letra da lei? Ou será se essa norma restringe-se ao campo meramente material, posicionando-se mais como uma norma programática que cogente?

Tais questionamentos foram despertados em meu intelecto pelo filme Histórias Cruzadas, que retrata, sob o viés das empregadas domésticas, a discriminação racial predominante nos Estados Unidos, da década de 40. As pobres negras, em apertada sinopse, sofriam as mais cruentas formas de exclusão social, que perpassavam a proibição de frequentar certos ambientes ao absurdo de serem tolhidas, por força de lei, a utilizar o mesmo banheiro de seus patrões.

Sarah Meneses, a curica de ouro

O ouro olímpico da judoca piauiense Sarah Meneses


Há pelo menos dez dias, ri-me ao ver que, no microblog Twitter, dentre os Trending Topics, constava a expressão “curica de ouro”, que aludia à conquista histórica do ouro olímpico pela judoca piauiense Sarah Meneses. Como é cediço, tal expressão advém do bordão utilizado por uma personagem de novela televisiva, transmitida pela emissora Rede Globo. No mesmo dia, também incorri em felicidade instantânea, ao deparar-me com um depoimento incontido, de idêntica temática, de um usuário da rede social Facebook; dessa vez, porém, de tom mais estúpido e menos humorístico que aqueloutro. Transcrevo um trecho da declaração, com as devidas correções gramaticais: “Pode ganhar milhões de medalhas... O Brasil vai continuar o mesmo em educação, saúde, segurança (...).” Aqui, utilizo-me de meu direito constitucional ao silêncio, tamanha a ausência de embasamento fático e lógico da assertiva. As críticas destrutivas e as expressões faciais ficam a seu critério, leitor.

Os bastidores de um Führer

Os bastidores da Segunda Guerra Mundial


“ELE FAZIA esboços, pintava, projetava museus, uma ponte sobre o rio Danúbio, teatros e até mesmo a completa reconstrução de Linz. Fez também, por um tempo, algumas aulas de piano. Além disso, frequentava concertos, teatros, um clube de música, outro de livro e um museu de cera.”

Acredito que essa descrição é exígua e por demais vaga para ser imputada a alguém. Porei aqui, então, mais alguns trechos de alusão ao nosso protagonista de hoje, leitor. Dou-lhe apenas mais duas chances para atingir a resposta correta.

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