Apaixone-se - parte III
Relatarei, aqui, caro leitor, histórias baseadas em fatos reais, sobre paixões vividas por pessoas comuns, que não conseguem se entregar menos que integralmente ao ser amado. Paixões que se prolatam pelo tempo com a mesma destruição e imprevisibilidade de uma tempestade de inverno.
Os pequenos contos serão expostos em primeira pessoa, de modo a dar mais realidade ao depoimento e a facilitar o acesso ao seu coração, meu leitor, através de seus olhos.
A cada texto deste sequencial será atribuída uma trilha sonora conexa ao mesmo, para ser ouvida (e sentida) por você, durante o processo de leitura. Essa experiência possibilitará uma mistura inigualável de sensações, aguçando seus sentidos mais íntimos!
Deguste este conto ao som de AMY WINEHOUSE - YOU KNOW I'M NO GOOD.
A SOBERBA #2
NASCEU no interior do estado, em uma choupana de teto de palha e paredes de barro. Se o ditado popular fosse verídico, diria que nasceu com as nádegas viradas para o Sol. Teve de viver aquela vidinha interiorana de muito trabalho e pouco estudo.
- QUERIDO, olhe para mim - disse D. Leopoldina, pondo as palmas das mãos sobre o rosto do pequenino Assis. – Nunca, nunca acredite naqueles que zombam de sua capacidade, certo? Fez-se uma longa pausa. A genitora sufocou-o com um imenso abraço, como que querendo protegê-lo da caixa de Pandora, alcunhada de mundo. Uma lágrima escorreu-lhe. Sabia que a vida ser-lhe-ia implacável; que não perdoaria sua origem humilde e sua descendência étnica. Inocente, esbugalhou os olhos, tentando compreender o motivo da emoção repentina. Mal sabia que este seria seu derradeiro afago.
- Aaaah, pai! – estirou-se no colchão, que, apesar de encharcado, não parecia incomodá-lo. – Cadê a Tonha e o Pedim? Eles faz isso mió que eu! – riu-se, em uma risadinha preguiçosamente debochada.
- Filha, não esqueça do ensaio hoje, às 13h!



Joaquim é
o típico homem médio, de estatura mediana, de opinião e dizeres consensuais, QI
aceitável e portador da síndrome do jeitinho brasileiro. Sinto dizer que a
Medicina não se atém às doenças fictícias, resultantes do ócio improdutivo da
bizarrice literária. Resta-me, portanto, descrevê-la com meus próprios
hieróglifos: a síndrome do jeitinho brasileiro acomete todos aqueles que, aqui
nascidos, ou até naturalizados, possuem a missão divina de obrar milagres, e
multiplicar os pães de um salário mínimo; reitero, mínimo. Os principais
sintomas deste mal são: atração magnética pelo verbete liquidação; incríveis
habilidades argumentativas em contratos de compra e venda; compulsão por objetos
de baixo custo, ainda que supérfluos; uso involuntário e contínuo da frase
“parcela em quantas vezes, senhor?”; e, principalmente, tudo é sempre muito
caro (e o dinheiro sempre muito escasso, claro), para o portador desta
síndrome.