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Apaixone-se! - parte I

Relatarei, aqui, caro leitor, histórias baseadas em fatos reais, sobre paixões vividas por pessoas comuns, que não conseguem se entregar menos que integralmente ao ser amado. Paixões que se prolatam pelo tempo com a mesma destruição e imprevisibilidade de uma tempestade de inverno.

Os pequenos contos serão expostos em primeira pessoa, de modo a dar mais realidade ao depoimento e a facilitar o acesso ao seu coração, meu leitor, através de seus olhos.


A cada texto deste sequencial será atribuída uma trilha sonora conexa ao mesmo, sob a curadoria do jornalista Rayldo Pereira, para ser ouvida (e sentida)  por você, durante o processo de leitura. Essa experiência possibilitará uma mistura inigualável de sensações, aguçando seus sentidos mais íntimos!

Deguste este conto ao som de TOVE LO - HABITS.

O manequim gay

A estória que se segue se passa em um mundo paralelo, em um tempo indefinido, composta de personagens e ações sutilmente distintas daquelas que você, leitor, está acostumado a presenciar em seu cotidiano preto-e-branco.

Pedro, todos os dias, pontualmente, acorda às 06h30 da manhã. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Levanta-se, olha-se no espelho, desenha em sua cabeça pensamentos depreciativos sobre sua aparência física, toma um banho, veste-se, prepara um café da manhã leve e sai para uma corrida. Põe seus fones e ouve músicas no modo aleatório: não importa o timbre do cantor ou a harmonia da composição, apenas o barulho que invade e preenche seus ouvidos.

Meu porto seguro



Meu barquinho andava
A esmo.
Dizia -se independente, que navegaria
Por ele mesmo.
Casco, já consumado pela ferrugem,
Por inteiro, salinizado.
Mastro, meio quebrado, pendia ao
Vento, com ares de cansado.

Um dia, tempestade furiosa e
Ondas colossais
Atormentaram minha solidez.
Ou seria morte, ou seria cais.

Dicas de como ser um bom adúltero

NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS POR CONTER PALAVREADO DE BAIXO CALÃO.

- Quando você voltará, querido? – Vânia contorcia-se dengosamente por entre os lençóis de algodão do motel.
- Não sei, já disse! – enfatizei rispidamente. – E, mais uma coisa, - acrescentei – não me ligue mais! Da última vez, tive de fazer uma encenação digna de Oscar para convencer Helena – revirei os olhos. Sabe como ela é ciumenta, e que já vem desconfiando de um novo relacionamento paralelo.
- HAHAHA! – riu-se por inteira, com ênfase no tom de deboche. Até quando aquela corna vai aceitar suas traições, hein?
De sobressalto, saltei sobre Vânia e, quando dei por mim, minhas mãos já estavam envoltas em seu pescoço, enquanto paralisava suas pernas, que pendiam inúteis entre as minhas.
- N-U-N-C-A mais repita isso! – a fúria ardia em meus olhos. – Ouviu, sua rapariga? – vi a cor esvaindo de seu rosto, enquanto se debatia inerte, tal qual uma presa nas garras do predador. – Você sequer é digna de pronunciar o nome de Helena, entendeu?!

Padrasto versus enteado

Pedro sabia que Félix não é nem nunca seria seu pai. Nem ambos tinham a intenção de sê-lo.  Apenas suportavam a relação não amistosa em respeito ao pupilo em comum: Gal. O carisma contagiante e o sorriso fácil desta sucumbiam qualquer ímpeto animalesco. Os machos sabiam que a luta por aquisição do território seria inoficiosa. Restava, pois, o conter de ânimos.

Félix sequer se esforçava para conquistar a amizade dos filhos. Pedro, por sua vez, não estava disposto a ser domado. Ricardo assistia inerte às lutas romanas entre ambos. Gal agia como juíza conciliadora, ora em diplomacia, ora em liderança. Nem é preciso se utilizar tanto de argumentos quando se tem poder de sedução sobre o sexo oposto.

Simpatias de fim de ano

Saiba como trazer seu amor em 3 dias


Ceia em família. Festa com os amigos. Viagem para o litoral. Show do Roberto Carlos na Globo. Gordos ressonos nos braços de Morfeu, simplesmente. Várias são as formas de se passar a virada do ano, ou, como diríamos nós, importadores da língua estrangeira, Réveillon.


Alguns rezam, outros pulam sete ondas, muitos vestem brancos, e acreditam no melhor, pois, no ano próximo, os astros estarão a seu favor. 

Pai, me compra um amigo?


AOS PRANTOS, meu filho veio em minha direção, atropelando-se entre soluços e obstáculos:
 - Que foi, pequenino? – envolvi-o em meus abraços, afagando-lhe a dor.
 - P-p-pai, me compra um amigo? – disse, enxugando as lágrimas e com brilho nos olhos daqueles que possuem plena convicção do que dizem.
- Comprar um amigo? – estranhei o pedido, ofertando-lhe a impossibilidade empírica do fato por meio de um franzir de cenho.
Explicou-me toda a história, entre malabarismos e contorcionismos corporais, queixando-se de suas falsas amizades.
 - Meu querido – adociquei a voz -, aprenda, desde já, que o ser humano é o bicho mais difícil de se lidar. – retirei o cabelo que caía em sua testa e aproximei-me de seu rosto. – Aprenda, também, antes de tudo, a perdoar as pessoas.

Você quer ser meu pai?


Abandono de crianças em orfanatos no Brasil


HELENA fincava fortemente as unhas em minhas costas. Suas lágrimas inundavam meu paletó. Reunia, em minhas vísceras, o impossível, para não sucumbir àquele momento. Era o terceiro filho que perdíamos, somente naquele ano.

 - Eu sou uma oca, Vinícius! Completamente vazia por dentro! – agitava a cabeça, desordenadamente, atrapalhando-se entre lágrimas e palavras.

 - Amor... – suspirei fundo. – Acalme-se. A culpa não é sua. – pus meu indicador em seu queixo e, erguendo seus olhos, enxuguei-lhe as lágrimas e beijei-lhe a testa. – O aborto espontâneo, como a própria nomenclatura sugere, independe completamente de sua vontade. – entoava minha voz, de modo a soar a mais acolhedora possível. – Simplesmente acontece. – conclui, abraçando-a com maior afinco. Olhei para o nada, por sobre seu ombro, e perdi-me em pensamentos, perguntando-me até que ponto suportaria aquilo tudo.

Não, eu NÃO te amo!

A AVAREZA #2

DEVO tê-la assustado, não, querida leitora? Você, tão acostumada aos pieguismos exacerbados de Crepúsculo, indubitavelmente, percorreu o título deste conto com um franzir de testa. Não se preocupe que, na rispidez de minhas palavras, manterei intacto seu mundo cor-de-rosa.
Eu não te amo (Poemas Avulsos)Felipe de Sá transladava os polegares, enquanto mantinha os demais dedos entrelaçados. Sempre repetia este movimento, em momentos de tensão; em uma tentativa, quase sempre frustrada, de aliviar a sobrecarga de seus ombros. Olhava para o lustre que pendia do teto, ornamentado com uma réplica de Da Vinci. Suas pernas, cruzadas, denunciavam pés acelerados e compulsivos.
 - Mas, Dr. Lúcio, isto tem cura mesmo?, era a quinta vez que perguntava, em um interstício de dez minutos.
 - Felipe, acalme-se. Você já ouviu falar que para todo problema há uma solução?, seu olhar clínico era estranhamente frio e reconfortante. Pegue, tome mais um pouco desta água, entregou-o o copo que antes repousava sobre o criado-mudo, ao lado.

Sapo à milanesa

A INVEJA #3

Sapo no caldeirão (Poemas Avulsos)Invejo o sol que aquece tuas curvas. Invejo o vento, bailando, em teus cabelos. Invejo a água que percorre teus lábios. Invejo o espelho, e a réplica de teus olhos, oblíquos e dissimulados. Invejo as vestes que protegem tua pele. Invejo, e como invejo!, os segundos que não mais retornam; em que a felicidade palpitava em meu sorriso, e transbordava em meus olhos. Não mais sei viver sem os contornos de tua silhueta e a maciez de tua gargalhada. Não, não mais. És única, ó minha amada!

(Segundos depois)

 - Fecha essa cortina, mulher! Não vês que o sol queima meu rosto e o vento resseca minha pele?

Via Sedex

Corações partidos, 09 de abril de 2011.


Queridíssimo Amor,

Antes de desenrolar minha prosa, devo dizer que não me são intrínsecas as palavras romantizadas e fantasiosas. Digo isso porque o conheço tão bem a ponto de saber que vives a espera de devaneios linguísticos.

Cores de um epitáfio

Tuas impecáveis curvas embebedam-se em minhas letras, sorriem por entre meus traços, percorrem meus afetuosos abraços. 
Como queria que teus olhos saltassem das órbitas desta moldura e me extrapolassem (me preenchessem, me invadissem) com toda aquela tua suavidade – que só tu sabes demonstrar.
Clamo para que tua boca encontre os atalhos de meu desejo; oro para que traga consigo o toque úmido do mais puro prazer.

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