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A família perfeita

Uma (falsa) família perfeita


Éramos uma família perfeita, no sentido bíblico da expressão. Marido, mulher e dois roliços e rosados filhos. Como bons católicos, íamos à igreja semanalmente, sempre aos domingos. Jantávamos em requintados restaurantes, preferencialmente aos sábados. Convidavam-nos para todos os eventos festivos, desde aniversários até réveillons. Sempre queriam nos manter por perto, como que à espera que, por um deslize, mostrássemos personalidades grosseiras e selvagens. Éramos impecáveis, no entanto. A vizinhança nos inveja e questionavam-se como uma família poderia ser tão unida e feliz. Devo dizer que éramos excelentes atores.

Sarah Meneses, a curica de ouro

O ouro olímpico da judoca piauiense Sarah Meneses


Há pelo menos dez dias, ri-me ao ver que, no microblog Twitter, dentre os Trending Topics, constava a expressão “curica de ouro”, que aludia à conquista histórica do ouro olímpico pela judoca piauiense Sarah Meneses. Como é cediço, tal expressão advém do bordão utilizado por uma personagem de novela televisiva, transmitida pela emissora Rede Globo. No mesmo dia, também incorri em felicidade instantânea, ao deparar-me com um depoimento incontido, de idêntica temática, de um usuário da rede social Facebook; dessa vez, porém, de tom mais estúpido e menos humorístico que aqueloutro. Transcrevo um trecho da declaração, com as devidas correções gramaticais: “Pode ganhar milhões de medalhas... O Brasil vai continuar o mesmo em educação, saúde, segurança (...).” Aqui, utilizo-me de meu direito constitucional ao silêncio, tamanha a ausência de embasamento fático e lógico da assertiva. As críticas destrutivas e as expressões faciais ficam a seu critério, leitor.

Mais gostosa que nunca!

A GULA #2

Mulher gorda e feia (Poemas Avulsos)COMPLETARAM dez anos de casados na semana anterior. O tédio, há pelo menos três anos, instalara-se na relação conjugal. Do contrato matrimonial, originaram-se três filhos, dois amantes e muitos, muitos débitos. Marcelo e Carmem eram os protagonistas do teatro que eles chamavam vida. A opinião dos vizinhos é sempre muito importante, leitor.
Carmem, em notória ousadia, desfilava pelo costumeiro pagode, com um short curtíssimo, uma tomara-que-caia apertadíssima e três camadas de pele. Era mestra nos superlativos. Com altivez de galo em chuva, exibia Leandro, que, para fins teatrais, era amigo de família.
Em mesa próxima, coincidência ou não, avistara Marcelo, intitulado pelos íntimos de São Jorge, ao lado de mais uma de suas feras. Aproximou-se e, antes de destilar seu veneno, Marcelo interpôs:

Síndrome do jeitinho brasileiro

A AVAREZA #1

Joaquim Almeida Machado, 43 anos, divorciado, dois filhos, eletricista. Esta é a identidade basilar do protagonista de nosso conto de hoje, caro leitor. Superficial? Acalme-se, que, no percorrer destas linhas, detalharei o perfil do pitoresco.
Avareza (Poemas Avulsos)Joaquim é o típico homem médio, de estatura mediana, de opinião e dizeres consensuais, QI aceitável e portador da síndrome do jeitinho brasileiro. Sinto dizer que a Medicina não se atém às doenças fictícias, resultantes do ócio improdutivo da bizarrice literária. Resta-me, portanto, descrevê-la com meus próprios hieróglifos: a síndrome do jeitinho brasileiro acomete todos aqueles que, aqui nascidos, ou até naturalizados, possuem a missão divina de obrar milagres, e multiplicar os pães de um salário mínimo; reitero, mínimo. Os principais sintomas deste mal são: atração magnética pelo verbete liquidação; incríveis habilidades argumentativas em contratos de compra e venda; compulsão por objetos de baixo custo, ainda que supérfluos; uso involuntário e contínuo da frase “parcela em quantas vezes, senhor?”; e, principalmente, tudo é sempre muito caro (e o dinheiro sempre muito escasso, claro), para o portador desta síndrome.

Sapo à milanesa

A INVEJA #3

Sapo no caldeirão (Poemas Avulsos)Invejo o sol que aquece tuas curvas. Invejo o vento, bailando, em teus cabelos. Invejo a água que percorre teus lábios. Invejo o espelho, e a réplica de teus olhos, oblíquos e dissimulados. Invejo as vestes que protegem tua pele. Invejo, e como invejo!, os segundos que não mais retornam; em que a felicidade palpitava em meu sorriso, e transbordava em meus olhos. Não mais sei viver sem os contornos de tua silhueta e a maciez de tua gargalhada. Não, não mais. És única, ó minha amada!

(Segundos depois)

 - Fecha essa cortina, mulher! Não vês que o sol queima meu rosto e o vento resseca minha pele?

Bullying fail

A INVEJA #2
Tão incrível e sutil,
Teu doce jeito matreiro.
Te beijei, tudo sumiu.
Inclusive meu dinheiro.

Aviso-te, leitor, que qualquer semelhança entre o que aqui discorro e a sua realidade não são mera coincidência.
Flávio nunca fora um arquétipo de beleza física. Dentre inúmeras desarmonias (eram imensuráveis, sim, em sua cabeça), o excesso de peso e a escassez de estatura eram os alvos prediletos do escárnio alheio. A notoriedade de sua presença não era tão intensa quanto acreditava, no entanto; a timidez o tornava simplesmente neutro, quase imperceptível, diante dos olhares inquisidores.

Quinque Luxuria (Introito)

A LUXÚRIA #1

 INTROITO

Caros leitores,

Inicia-se hoje, no blog Poemas Avulsos, a série “O Oitavo Pecado Capital”. A série abordará, sob um invés não-convencional, os sete pecados capitais clássicos (a Luxúria, a Ira, a Inveja, a Avareza, a Gula, a Preguiça e a Soberba). Para isso, serão publicados três textos, um em cada semana, para cada pecado, em um período aproximado de cinco meses. Ao final, será abordado o oitavo pecado capital, o pequeno elemento surpresa que intitula a série.
Sem mais delongas, iniciemos com a instigante Luxúria.

Do latim tripalium

Cargo não remunerado, vitalício, desprovido de quaisquer prerrogativas legais (FGTS, auxílio doença, licença maternidade, dentre outros); sujeito a elevadíssimo grau de estresse físico e psíquico; necessário desembolso de consideráveis e constantes valores monetários; sumariamente proibido repouso de qualquer natureza; condições de trabalho, em geral, insalubres, com presença constante de coliformes fecais e uréia; não há direito a rescisão contratual. Carga horária: 168 horas/semana, isto é, 24h por dia, 7 dias por semana. Interessados, favor procurar espermatozóide apto a fecundar óvulo. Para exercício de todas as faculdades inerentes ao cargo, deve-se aguardar 9 meses, contados a partir da data de fecundação.

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