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conto
,
discriminação
,
família
,
homossexualismo
,
humor
,
intolerância
Sem comentários
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discriminação
,
família
,
homossexualismo
,
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A família perfeita
Uma (falsa) família perfeita
Éramos uma família perfeita, no sentido bíblico da expressão. Marido, mulher e dois roliços e rosados filhos. Como bons católicos, íamos à igreja semanalmente, sempre aos domingos. Jantávamos em requintados restaurantes, preferencialmente aos sábados. Convidavam-nos para todos os eventos festivos, desde aniversários até réveillons. Sempre queriam nos manter por perto, como que à espera que, por um deslize, mostrássemos personalidades grosseiras e selvagens. Éramos impecáveis, no entanto. A vizinhança nos inveja e questionavam-se como uma família poderia ser tão unida e feliz. Devo dizer que éramos excelentes atores.

Joaquim é
o típico homem médio, de estatura mediana, de opinião e dizeres consensuais, QI
aceitável e portador da síndrome do jeitinho brasileiro. Sinto dizer que a
Medicina não se atém às doenças fictícias, resultantes do ócio improdutivo da
bizarrice literária. Resta-me, portanto, descrevê-la com meus próprios
hieróglifos: a síndrome do jeitinho brasileiro acomete todos aqueles que, aqui
nascidos, ou até naturalizados, possuem a missão divina de obrar milagres, e
multiplicar os pães de um salário mínimo; reitero, mínimo. Os principais
sintomas deste mal são: atração magnética pelo verbete liquidação; incríveis
habilidades argumentativas em contratos de compra e venda; compulsão por objetos
de baixo custo, ainda que supérfluos; uso involuntário e contínuo da frase
“parcela em quantas vezes, senhor?”; e, principalmente, tudo é sempre muito
caro (e o dinheiro sempre muito escasso, claro), para o portador desta
síndrome.
Invejo o sol que aquece tuas
curvas. Invejo o vento, bailando, em teus cabelos. Invejo a água que percorre
teus lábios. Invejo o espelho, e a réplica de teus olhos, oblíquos e
dissimulados. Invejo as vestes que protegem tua pele. Invejo, e como invejo!,
os segundos que não mais retornam; em que a felicidade palpitava em meu
sorriso, e transbordava em meus olhos. Não mais sei viver sem os contornos de
tua silhueta e a maciez de tua gargalhada. Não, não mais.