O manequim gay

A estória que se segue se passa em um mundo paralelo, em um tempo indefinido, composta de personagens e ações sutilmente distintas daquelas que você, leitor, está acostumado a presenciar em seu cotidiano preto-e-branco.

Pedro, todos os dias, pontualmente, acorda às 06h30 da manhã. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos. Levanta-se, olha-se no espelho, desenha em sua cabeça pensamentos depreciativos sobre sua aparência física, toma um banho, veste-se, prepara um café da manhã leve e sai para uma corrida. Põe seus fones e ouve músicas no modo aleatório: não importa o timbre do cantor ou a harmonia da composição, apenas o barulho que invade e preenche seus ouvidos.

Somos todos macacos?


É lançada um campanha publicitária, difundida pelo jogador de futebol Neymar Jr., com o fito de combater as práticas racistas no meio futebolístico. Sim, campanha publicitária. Como é cediço, tudo não passou de um golpe de marketing milimetricamente planejado pela equipe de imagem do jogador (o que não tira nobreza da manifestação).

O problema é, devo dizer, que não basta que famosos postem #selfies em redes sociais comendo bananas. Também não são suficientes postagens de trinta linhas comentando o absurdo do episódio com o jogador Daniel Alves (até porque todos nós já sabemos os mais profundos detalhes da história).

Como ser um bom escritor



Certa vez, em um passado nem tão longínquo, um amigo me abordou e questionou: como está o Blog, Elvis? Esbocei a mesma reação, que esboço a todos, um franzir de cenho, acompanhado de um enruguecer de lábios: rapaz, está parado. Logo acompanhado da desculpa de compreensão universal: não tenho tido tempo. Ok.
Em passado mais recente, outro amigo dispersou a seguinte informação: o Elvis escrevia um Blog (isso mesmo, no pretérito, indicando uma ação perfeitamente acabada e concluída). Estranhei porque, até então, jamais ouvira tamanha audácia: nunca parei de escrever. Logo, ele disparou uma resposta muito perspicaz – a mesma que me levou a escrever o presente texto: é, mas você sequer atualiza mais. Mantive-me inerte diante daquela afirmação, refletindo, cabisbaixo, a respeito de sua veracidade. Hoje, neste domingo de ócio produtivo, venho, por meio deste instrumento, oferecer minha réplica, que outrora se mantivera calada:

Meu porto seguro



Meu barquinho andava
A esmo.
Dizia -se independente, que navegaria
Por ele mesmo.
Casco, já consumado pela ferrugem,
Por inteiro, salinizado.
Mastro, meio quebrado, pendia ao
Vento, com ares de cansado.

Um dia, tempestade furiosa e
Ondas colossais
Atormentaram minha solidez.
Ou seria morte, ou seria cais.

Gladiadores

LEITURA NÃO ACONSELHÁVEL PARA MENORES DE 18 ANOS E PARA PORTADORES DE MENTES DIMINUTAS. 
 
Os raios de sol atravessavam facilmente as escassas nuvens, em ângulo de 45º, no sentido oeste, naquele fim de tarde de verão. O suor escorria, ondulando em salientes curvas, um caminho árido e tortuoso, esculpido por sulcos de cicatrizes e peitorais milimetricamente desenhados. Seus rostos refletiam uma angústia, que almejava ser fúria, naquele frenesi de emoções e de gritos desesperados da plateia animalesca. Seguravam na mão direita, ou esquerda, a depender de variantes canhotas ou destras, uma longa espada, que reluzia um aço imperioso de 50 centímetros e que sussurrava clamores de milhares de almas por ela libertadas. Na mão esquerda, fincava um escudo, de 100 centímetros de diâmetro, decorados minuciosamente por pedras toscas, que, criteriosamente, amplificavam os gritos das mais horrendas figuras, desde mitológicas a impressionistas. Aguardavam aqueles que poderiam ser os últimos minutos de suas vidas, na esperança, quase insensata, de se verem libertos daquela gigantesca prisão côncava.

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