Arco íris preto e branco

Túlio tinha lá seus vinte e tantos anos. Digamos que sua beleza não atendia aos padrões universais. Seus intensos olhos cinzentos davam-lhe um ar, hã, digamos, enigmático.
No alvorecer de sua adolescência – após alguns longos anos de intensas batalhas internas -, Túlio assumiu sua homossexualidade. Sua mãe, como se já soubesse desse fato (e, no fundo, realmente sabia), aceitou a notícia com um simples franzir de testa.
Abaixou a cabeça, suspirou profundamente, e, quando parecia que fuzilaria Túlio com mil insultos, olhou-o com firmeza e apenas disse: Só quero que você tenha cuidado, meu filho. Cuidado com suas amizades. Cuidado com sua saúde. Seu olhar agora estava carregado de preocupação. Ela sabia o quanto era difícil lidar com a AIDS e com a discriminação sexual.
Alguns dos amigos de Túlio foram receptivos com a notícia. Outros demoraram algum tempo para processar a informação, como se estivessem imersos em um estado de transe. Outros simplesmente se detiveram a olhá-lo com uma expressão de “eu já sabia, imbecil”. Alguns simplesmente se afastaram. A estes não dou o nome de amigos. Consulte um dicionário – ou seus preceitos morais – e você descobrirá o porquê.
Foi doloroso para Túlio, ainda tão jovem, deparar-se com a horrenda face do preconceito. Já sofrera outros tipos de preconceito, lógico. O ser humano, a todo instante, insiste em excluir aqueles que não atendem aos seus padrões. Mas nada se igualava a esse. Os insultos (tanto físicos quanto psicológicos) foram inúmeros. Constantemente, lançavam-no olhares reprovativos, como se ele possuísse uma horrível doença contagiosa – e como se escolhesse possuí-la.
Aos poucos, Túlio foi afundando no escuro labirinto da depressão. O resto de seu chão desabou quando ele soube que havia contraído AIDS. Como pode? Mas eu sempre me protegi! Sempre usei camisinha! Uma torrente de pensamentos invadiu sua cabeça. Ele sabia, no fundo, que estava mentindo para si: nunca se preocupou muito com a integridade de sua saúde. Sem respostas para suas indagações, Túlio sentou-se no chão e enterrou sua cabeça entre as mãos. Foram longos instantes de dolorosas lágrimas.
A notícia espalhou-se. Aos poucos, os amigos de Túlio foram se dissipando. Apenas sua mãe e uma vizinha (que, até certo tempo, não era tão significativa em sua vida) se mantinham firmes, com um consolo e amparo inquestionáveis. Até seu cachorro mostrou-se mais fiel que todos aqueles que um dia chamou de amigo. O Canis familiares não possui a inteligência racional dos humanos, mas é capaz de ofertar algo que muitos Homo sapiens sequer foram – ou são – capazes de experimentar: uma amizade fidedigna.
A superação, em aliança com o tempo, contempla seus vencedores com pequenas (porém preciosas) doses de sabedoria. Hoje, Túlio sabe a quem realmente deve atribuir o título de amigo – e todas as honrarias intrínsecas a este inalienável posto. Sabe que tamanho título só pode ser concedido a pouquíssimas pessoas que (ainda!) guardam em si a capacidade de ofertar um carinho desprovido de qualquer tipo de estereótipo.



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3 comentários :

Quantas dessas pessoas que nos cercam são nossos verdadeiros amigos? Em quem podemos verdadeiramente confiar?
acho que não há uma resposta para isso. o único jeito é arriscar. Nos sentimos injustiçados, desapontados com quem nos dá as costas, com quem comete erros e nos prejudicam, mesmo sabendo que não existe ninguém perfeito nesse mundo. É preciso paciência e nunca desistir, pois mesmo com toda coisa ruim que o ser humano possa ter, ainda existe um lado bom.

ótimo tema, texto didático, mas com um objtivo claro!

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